quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Testamento - Poema de Alda Lara - Poetisa Angola

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Testamento

À prostituta mais nova

Do bairro mais velho e escuro,

Deixo os meus brincos, lavrados

Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida

Rapariga sem ternura,

Sonhando algures uma lenda,

Deixo o meu vestido branco,

O meu vestido de noiva,

Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo

Ofereço-o àquele amigo

Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus

Das contas de outro sofrer,

São para os homens humildes,

Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,

Esses, que são de dor

Sincera e desordenada...

Esses, que são de esperança,

Desesperada mas firme,

Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,

Em que a minha alma venha

Beijar de longe os teus olhos,

Vás por essa noite fora...

Com passos feitos de lua,

Oferecê-los às crianças

Que encontrares em cada rua...

Alda Lara
(Benguela, Angola, 9.6.1930 - Cambambe, Angola, 30.1.1962)


4 comentários:

  1. Poema de grande sensibilidade. Nunca tinha ouvido falar dessa poetisa.

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  2. Brilhante, perfeito poema, Jorge.

    Muito bacana essa angolana, aliás.

    Beijo

    Carla

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  3. Há poucos anos é que tomei conhecimento da poesia desta mulher de Benguela mas que toda a Angola conhece. Uma boa escolha. Palma

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