quinta-feira, 31 de março de 2011

Sondagem da Intercampus para a TVI.

Resultados da sondagem

PSD - 42,2%
PS - 32,8%
CDS/PP - 8,7%
Bloco de Esquerda - 7,9%
PCP - 7,1%
Outros - 1,3%

Verifica-se que o PSD não consegue a maioria absoluta. Em conjunto com o CDS essa maioria é atingida.
Em minha opinião José Sócrates, até às eleições, vai recuperar muito do terreno perdido e aproximar-se do PSD. Com o anúncio do PEC 4 é natural a perda de popularidade e de votos. Só que Pedro Passos Coelho (PPC) tem revelado uma grande incapacidade para gerir a situação. Talvez porque foi obrigado a precipitar a crise antes do tempo por ele programado. Ou, o mais provável, por incompetência. E não tem a astúcia política de José Sócrates.
 O que temos verificado é uma correria aos canais de televisão, numa espécie de jogo de pingue-pongue e, quase sempre, verifico que a vitória pertence a Sócrates. Se PPC tem pretensões a ser primeiro-ministro já era tempo de ter a seu lado uma equipa de gente credível que levasse os portugueses a pensar que os sacrifícios de hoje seriam úteis para o futuro. Mas o que os portugueses sentem é que os problemas vão-se agravando não se vislumbrando qualquer luz ao fim do túnel.

O que eles dizem:

"Pensei que o PSD tinha pensado numa aliança com o CDS, mas parece que é com o FMI"
(José Sócrates, falando sobre as supostas intenções do PSD se chegar ao governo).

"Eu percebo que para o PSD um acordo com o FMI seja a forma disfarçada de impor a agenda liberal".
(Afirmação de José Sócrates após ter sido reeleito secretário-geral do PS).

O PS "insiste numa atitude de pugilismo verbal". Apresentaremos "no momento adequado" um "projeto de esperança" para Portugal.
( Miguel Relvas, secretário-geral do PSD)

"Depois de terem aberto uma crise política vêm admitir aumentar o IVA. A isto se chama em política uma cambalhota". Não foi a liderança do PSD que explicou aos portugueses que o IVA não pode ser aumentando porque se trata de um imposto cego, injusto, que causaria recessão?.
(Afirmação de José Sócrates).

"Está para nascer um PM que tivesse enganado tanto os portugueses"  
(Miguel Macedo, líder parlamentar do PSD a propósito dos dados do INE, hoje divulgados, sobre as contas do estado).    

 Crise política é “golpe” de Sócrates para se vitimizar.   
(António Barreto, antigo ministro socialista).                       

quarta-feira, 30 de março de 2011

Músicas que me marcaram...(3)

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Os Vampiros
 Zeca Afonso

No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas pela noite calada

Vêm em bandos com pés de veludo
Chupar o sangue fresco da manada
Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada [bis]

A toda a parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos
Mas nada os prende às vidas acabadas

São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as tulhas bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei

Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

No chão do medo tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos na noite abafada
Jazem nos fossos vítimas dum credo
E não se esgota o sangue da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhe franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

Coisas que outros escrevem...

A palavra de Passos vale tanto como a de Sócrates.

Pedro Passos Coelho diz, desde que chegou à liderança do PSD, que não quer aumentos de impostos. Há um ano, acabou por deixar passar o PEC III, que aumentava os impostos. Pediu desculpas aos portugueses por aceitar aquilo que sempre recusara.
Depois disso, continuou a defender que aumentar os impostos não era a solução. Sobre o PEC IV afirmou: "Mantém a receita preferida deste governo: a solução da incompetência. Ou seja, se falta dinheiro aumentam-se os impostos". Chumbou o PEC e não foi preciso esperar um dia para surgir a sua proposta competente e inovadora: aumentar o IVA, o mais cego de todos os impostos. Vai ao bolso dos que sendo tão pobres nem impostos sobre os rendimentos pagam. Vai ao bolso até de quem não tem rendimentos.
Sabe quem não anda a olhar para a política com os óculos da partidarite que as soluções económicas e políticas de Passos Coelho pouco diferem das de Sócrates. No que será mais grave e estrutural limita-se a fazer o mesmo com mais convicção. Agora ficamos a saber que tem o mesmo respeito que o primeiro-ministro pela palavra dada.
Diz-se que Sócrates e Passos Coelho dificilmente se entenderão e que um bloco central apenas é possível sem um deles na liderança dos seus partidos. Uma questão de personalidades, garantem uns. Sócrates não é de confiança, dizem outros. Mas a verdade é que um e outro, para além de concordarem no essencial, padecem do mesmo mal que tem destruido a credibilidade da políca nacional: o que dizem num dia não vale um euro no dia seguinte.

Texto de: Daniel Oliveira no Jornal Expresso.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Anexação de Portugal pelo Brasil...


O jornal britânico de economia "Financial Times" sugeriu a anexação de Portugal pelo Brasil. Desde já o meu apoio. Ficamos em melhores mãos do que eventualmente viermos a ser anexados pela Espanha!!!
Uma PETIÇÃO JÁ!!!

quinta-feira, 24 de março de 2011

Músicas que me marcaram...(2)

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     Ne MeQuitte Pas 

Jacques Brel

Composição: Letra e Música: Jacques Brel 1959

Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
À savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
À coups de pourquoi
Le coeur du bonheure
Ne me quitte pas (x4)

Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'après ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas (x4)

Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants là
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s'embrasser
Je te raconterai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas (x4)

On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l'ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quite pas (x4)

Ne me quite pas
Je ne veux plus pleurer
Je ne veux plus parler
Je me cacherai là
À te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas (x4)

TRADUÇÃO :

Não me deixes
É preciso esquecer tudo
Tudo pode ser esquecido
Como o que já se foi
Esquecer o tempo
Dos mal-entendidos
E o tempo perdido
Em saber como
Esquecer essas horas
Que às vezes matavam
Com golpes de porquês
O coração da felicidade

Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes

Eu, eu te oferecerei
Pérolas de chuva
Vindas de um país
Onde não chove
Eu atravessarei a terra
Até próximo à morte
Para cobrir teu corpo
De ouro e de luz
Eu erguerei um domínio
Onde o amor será rei
Onde o amor será lei
E tu serás (eu serei) rainha

Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Eu vou te inventar
Palavras insensatas
Que tu compreenderás
Eu vou te falar
Daqueles amantes
Que por vezes viram
Seus corações se abrasarem
Eu vou te contar
A história de um rei
Morto por não ter
Podido te encontrar
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes

Por tantas vezes vimos
Ressurgir o fogo
Do antigo vulcão
Que se acreditava velho demais
Parece que ele tinha
Terras queimadas
Dando mais trigo
Que no melhor Abril
E quando cai a tarde
Para que o céu flameje
O vermelho e o negro
não se casam?

Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes

Não me deixes
Eu não vou mais chorar
Eu não vou mais falar
Eu vou me esconder ali
Só para te ver
Dançar e sorrir
E a te escutar
Cantar e depois rir
Deixe que eu me torne
A sombra da tua sombra
A sombra da tua mão
A sombra do teu cão
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
Não me deixes
                     

terça-feira, 22 de março de 2011

Miscelânea...

Soldado americano no Afeganistão demonstrando grande euforia junto de um cadáver de um talibã (clique na foto)
1 - A minha simpatia por Kadafi é ZERO. Mas não entendo o critério que leva a maior parte da comunicação social a considerar que a morte de civis numa guerra, causada por uma das partes, é um acto criminoso e, a causada por outra das partes, como "danos colaterais". E terei que acreditar que os bombardeamentos dos países da "coligação" são tão certeiros que só atingem alvos militares?
Talvez por serem tão certeiros é que depois se assiste a atrocidades cometidas pelos "bons" como sucedeu na prisão iraquiana de Abu Ghraib e, mais recentemente, conforme fotos publicadas na revista alemã "Die Spiegel", no Afeganistão. (Foto acima). Imagens arrepiantes!!!

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2 - Após uma intervenção, no parlamento, da deputada do partidos "Os Verdes" em que esta afirmava que determinada afirmação era uma mentira, Sócrates ficou muito "indignado" pedindo que não se recorresse ao insulto e à injúria (como se a verdade fosse uma injúria!). Logo após, quando de uma intervenção do deputado Francisco Louçã, ainda que com o microfone desligado, Sócrates disse: "você está parvo, pá!" Facto não inédito já que, também após uma intervenção desse mesmo deputado, José Sócrates havia dito, nas mesmas circunstâncias, "Manso é a tua tia, pá!".  O debate no seu expoente máximo: a excelência!!!


3 - Os canais de TV anunciaram um milagre no Japão. Senhora de 80 anos e seu neto de 16 foram encontrados com vida  9 dias após o sismo tendo sido resgatados dos escombros. Um milagre para dois e para as quase prováveis 20000 vítimas?


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4 - Num programa de TV alguém a ser entrevistado durante um jogo de futebol: Sinceramente o árbitro está fazendo um excelente trabalho. Até porque a nossa equipa está a ganhar...Felizmente para o árbitro o "team" da casa estava a ganhar. Senão podia muito bem acontecer-lhe o mesmo que ao autocarro do Benfica e ao automóvel do Luís Filipe Vieira quando regressavam a Lisboa após o jogo em Paços de Ferreira!!!

segunda-feira, 21 de março de 2011

Dia Mundial da Poesia - 21 de Março

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

TABACARIA 
(15-1-1928)


 
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
 
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
 
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. 
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, 
E não tivesse mais irmandade com as coisas 
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua 
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada 
De dentro da minha cabeça, 
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
 
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. 
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo 
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, 
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
 
Falhei em tudo. 
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. 
A aprendizagem que me deram, 
Desci dela pela janela das traseiras da casa, 
Fui até ao campo com grandes propósitos. 
Mas lá encontrei só ervas e árvores, 
E quando havia gente era igual à outra. 
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
 
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, 
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, 
E ouviu a voz de Deus num poço tapado. 
Crer em mim? Não, nem em nada. 
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente 
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo, 
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. 
Escravos cardíacos das estrelas, 
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama; 
Mas acordámos e ele é opaco, 
Levantámo-nos e ele é alheio, 
Saímos de casa e ele é a terra inteira, 
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
 
(Come chocolates, pequena; 
Come chocolates! 
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. 
Come, pequena suja, come! 
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! 
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho, 
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
 
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei 
A caligrafia rápida destes versos, 
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, 
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro 
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas, 
E fico em casa sem camisa.
 
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, 
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, 
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, 
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, 
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, 
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -, 
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! 
Meu coração é um balde despejado. 
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco 
A mim mesmo e não encontro nada. 
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. 
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, 
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, 
Vejo os cães que também existem, 
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, 
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
 
Vivi, estudei, amei, e até cri, 
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses 
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); 
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo 
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
 
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz. 
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. 
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, 
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. 
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
 
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo, 
Como um tapete em que um bêbado tropeça 
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
 
Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra, 
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, 
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?), 
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. 
Semiergo-me enérgico, convencido, humano, 
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
 
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los 
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. 
Sigo o fumo como uma rota própria, 
E gozo, num momento sensitivo e competente, 
A libertação de todas as especulações 
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
 
Depois deito-me para trás na cadeira 
E continuo fumando. 
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
 
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira 
Talvez fosse feliz.) 
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). 
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica. 
(O dono da Tabacaria chegou à porta.) 
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. 
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo 
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Músicas que me marcaram...(1)

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Construção

Chico Buarque

Composição: Chico Buarque
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague.

terça-feira, 15 de março de 2011

Guerra Colonial - fotos e comentários -.

(População de Ninda - Leste de Angola - reunida com o chefe de posto e governador)
(Jantarada em Ninda...)
(Momento de descontração - Ninda - Leste de Angola)
(Jogando às cartas "King" - Santa Cruz - Norte de Angola)

(Santa Cruz - Norte de Angola)

(Santa Cruz - Norte de Angola - Suite de Luxo - ...)

(Mulher indígena - Ninda - Leste de Angola)

(homem indígena remendado rede de pesca (?) que não servia para nada...Ninda)

Faz hoje 50 anos que a União das Populações de Angola (UPA) se rebeliou contra os colonos portugueses no Norte de Angola causando centenas de vítimas e provocando o pânico entre a população branca.

Os comentários do post anteriormente publicado sobre a guerra colonial:


Anónimo disse...
Magnífico testemunho Jorge. Essa é uma história que está ainda por fazer. Um grande abraço João Martins
Anónimo disse...
Como diz o João Martins esta história levará muitos anos a ser contada. É lenta, a descrição por parte de muitos que participaram nela. Mas de vez enquando lá vem mais um documentário, filme ou peça de teatro. As escolas deveriam tratar este tema como muitos outros, para que novas gerações possam avaliar o sofrimento porque passaram os seus pais, avôs, tios, amigos....... Palma
Tia Anica de Loulé disse...
É um facto que há um sentimento digamos de "vergonha" em se falar na Guerra Colonial. Não encontro motivos para isso porque é do conhecimento geral que a grande maioria dos jovens que para lá foram lutar não tinham alternativa. Só uma casta previligiada da nossa sociedade podia "fugir" da guerra... Hoje vão como voluntários para o Iraque e Afeganistão. E são heróis!!! Com salários milionários e condições que de maneira nenhuma existiam no tempo da guerra colonial. Enfim...
Anónimo disse...
Estava em Gago Coutinho nessa altura no PAD 2096. Era o F.Mil. Martinho e infelizmente houve outros casos como esse. Só lamento não darem o valor devido a quem sofreu, no auge da nossa juventude.
António Carvalho disse...
Também conheço esse lado mau de Angola apenas porque havia guerra, cheguei ao sector de Gago Coutinho em 72 e sai de lá em 74, ainda existem muitos sentimentos negativos pelo nosso passado de arma a tiracole, mas nós não devemos nem tememos, apesar de ter sido obrigado, sinto orgulho em ter pertencido a uma geração que fez parte da história recente e que não nos deve envergonhar. A que companhia pertencias? também temos um blog onde divulgamos o nosso passado no leste de Angola www.cart3514.blogspot.com . um abraço carvalho
Anónimo disse...
Em 1970 estava em Gago Coutinho o Bcaç.2886 "os leões do leste" faziam parte as Ccaç.2596/97/98, também andei por essas bandas, e há dias descobri na net, um rapazola que fez a travessia de àfrica em cima duma bicicleta, saiu de Luanda até Gago Coutinho e depois apanhou o barco a caminho do mussuma e da fronteira, atravessou a zambia o malawi e moçambique vale apena ver o site http://luandamaputobybicycle.blogspot.com/2010/04/angola-ultimos-dias-iii-luvei-lumbala.html João Ferreira
Jorge disse...
João Ferreira: o teu nome não me é estranho... O meu Batalhão era precisamente o 2886. Ccaç. 2597. Inicialmente estive no Luvuei (3 meses), depois Gago Coutinho (3 m.) e Ninda (12 m - o pior de todos os lugares...). Martinho: lembro-me da existência de um pelotão independente em Gago Coutinho. E de um episódio que aconteceu com um soldado desse pelotão. Num dia em que eu estava de serviço fui fazer a ronda nocturna pela povoação de Gago Coutinho passando pelos vários postos de vigilância. Quando cheguei ao posto da pista de aterragem não encontrei o sentinela! Os outros colegas dele estavam dormindo. Não era o turno de nenhum deles. Acordei-os e fui informado que quem devia de estar de sentinela se ausentou para a sanzala para, como não podia deixar de ser, ir dormir com a sua negra. Felizmente, um deles, conhecia a localização da cubata. Deslocámo-nos até lá e foi complicado. O tipo não queria sair de lá chegando a ameaçar-nos. Arrombamos a porta e trouxe-mo-lo de regresso ao posto de vigilância. Pela manhã bem cedo tinhamos que apresentar, pessoalmente, ao comandante do batalhão, um relatório escrito e oral sobre qualquer anomalia ou incidente. Um pouco antes, o meu camarada furriel miliciano desse pelotão independente, dirigiu-se a mim e me informou que tinha tomado conhecimento desse incidente. Disse-me que esse soldado até merecia que eu apresentasse queixa mas deixava a decisão para mim. Mas, subtilmente, acrescentou que apenas faltavam 2 meses para terminar a comissão do soldado. Já tinha decidido que não faria qualquer referência ao que se passou. Mas essas palavras vieram me ajudar. Afinal a solidariedade entre nós era uma evidência! Sendo Furriel Miliciano como podia "lixar" alguém? Ainda por cima prestes a terminar a comissão... Por acaso eras tu esse furriel miliciano que veio falar comigo? António Carvalho: já visitei o teu blog. E estive recordando as fotos do Leste. E deixei por lá um comentário. Um abraço a todos!!!

segunda-feira, 14 de março de 2011

D E M A G O G O !

Numa declaração ao país esta noite, o primeiro ministro afirmou que as medidas adicionais do PEC permitiram a "vitória" de Portugal na cimeira da zona euro. E deixou aviso à oposição: "quem quiser provocar uma crise política é livre de o fazer".

Preparando-se para a vitimização depois de ter arruinado o país!!! Mas o tiro, desta vez, vai-lhe sair pela culatra!!! Os portugueses não vão deixar-se enganar!!!

ADITAMENTOS:

António Barreto sobre José Sócrates:

"A função que exerce e a responsabilidade que tem, estão muito, muito acima das suas capacidades".

Num artigo publicado hoje no Diário de Notícias, o ex-Presidente, Mário Soares, diz que Sócrates "cometeu erros graves": "Não tem informado, pedagogicamente, os portugueses, quanto às medidas tomadas e à situação real do País" e, "nos últimos dias, negociou o PEC IV sem informar o Presidente da República, o Parlamento, e os Parceiros Sociais. Foram esquecimentos imperdoáveis ou actos inúteis que irão custar-lhe caro".

"As medidas não foram explicadas nem ao partido, nem ao País. A conferência de imprensa do ministro das Finanças [na sexta-feira], do ponto de vista da comunicação, foi um desastre", criticou ao Diário Económico o vice-presidente da bancada socialista Sérgio Sousa Pinto. Para este socialista, Sócrates deveria ter começado por explicar aos portugueses o "dilema que se põe ao País", porque "não há condições políticas para aplicar pactos de estabilidade sem pedagogia". O vice-presidente considera que Sócrates "devia ter falado com Cavaco" antes de anunciar as medidas em Bruxelas e entende que o PSD "tem toda a legitimidade para não querer associar-se a este PEC".

Vital Moreira afirma que a "obrigação política" de Sócrates comunicar novas medidas de austeridade ao Presidente tem, até, consagração constitucional. "O ressentimento antigovernamental do discurso inaugural de Cavaco não pode justificar o ressentimento antipresidencial do Governo".


 

Clara Nunes


(Clara Nunes: Paraopeba, 12 de agosto de 1943 — Rio de Janeiro, 2 de abril de 1983)
video

LAMA
Letra: Clara Nunes; Composição: Mauro Duarte

Pelo curto tempo que você sumiu
Nota-se aparentemente que você subiu
Mas o que eu soube a seu respeito
Me entristeceu, ouvi dizer
Que pra subir você desceu
Você desceu
Todo mundo quer subir
A concepção da vida admite
Ainda mais quando a subida
Tem o céu como limite
Por isso não adianta estar
No mais alto degrau da fama
Com a moral toda enterrada na lama

quarta-feira, 9 de março de 2011

A Geração à Rasca...



Tenho dúvidas se a melhor maneira de os jovens, da chamada "geração à rasca", manifestarem o seu desagrado é interrompendo um comício de um partido. Seja ele qual for. Mas não tenho dúvidas em afirmar que José Sócrates, o nosso primeiro-ministro, se comportou no seu melhor: sem a mínima noção da realidade do país que governa e com um comentário de extremo mau gosto que poderei considerar de ignóbil. Impróprio de alguém que governa um país!!! Os jovens protestam? É uma partida de carnaval...E como é carnaval ninguém leva a mal... Porreiro, pá!!! Acrescento eu. Como se vivessemos no país das maravilhas; Como se não houvesse mais de 600 mil desempregados; Como se não  existisse  fome neste país e mais gente sem condições para pagar os seus compromissos; Como se não existesse cada vez mais idosos com dificuldades para pagar os medicamentos que necessitam; Como se não fossem efectivamente os jovens uma das classes mais desfavorecidas e prejudicadas com a actual situação do país...
Ah! Nunca vi ninguém ser convidado para "jantar" depois de ser corrido a empurrões e expulso da casa...Que hipocrisia!!! Levada ao extremo...
Infelizmente uma pergunta me atormenta: Onde pára a oposição? A que tem pretensões a ser governo... É aquela coisa que alguém, num comentário no blog "Movimento Apartidário de Loulé" apelidou de Ken? Notam alguma diferença entre o Ken e José Sócrates?

quarta-feira, 2 de março de 2011

Noite 1948 - Poema de Alda Lara

NOITE 1948 - Outubro (Poemas1966)

Noites africanas langorosas,
esbatidas em luares...,
perdidas em mistérios...
Há cantos de tungurúluas pelos ares!...

Noites africanas endoidadas,
onde o barulhento frenesi das batucadas,
põe tremores nas folhas dos cajueiros...

Noites africanas tenebrosas...,
povoadas de fantasmas e de medos,
povoadas das histórias de feiticeiros
que as amas-secas pretas,
contavam aos meninos brancos...

E os meninos brancos cresceram,
e esqueceram
as histórias...

Por isso as noites são tristes...
Endoidadas, tenebrosas, langorosas,
mas tristes... como o rosto gretado,
e sulcado de rugas, das velhas pretas...
como o olhar cansado dos colonos,
como a solidão das terras enormes
mas desabitadas...

É que os meninos brancos...,
esqueceram as histórias,
com que as amas-secas pretas
os adormeciam,
nas longas noites africanas...

Os meninos-brancos... esqueceram!...

terça-feira, 1 de março de 2011

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(+) - Para a empresa de construção brasileira Queiróz Galvão que não se  poupou a esforços para resgatar os 48 trabalhadores portugueses e 156 brasileiros que estavam ao seu serviço em Bengasi, na Líbia. Desde a contratação de seguranças ao aluguer do navio e do avião para transportar os seus trabalhadores. "Uma empresa que soube tratar das suas gentes."

(-) -  Para Alexandre Soares dos Santos, o patrão do Pingo Doce por afirmar, na sessão de apresentação dos resultados do grupo Jerónimo Martins, que os truques são para o Sócrates. Esqueceu o truque que utilizou para pagar menos impostos este ano antecipando para Dezembro o pagamento de dividendos. Num momento em que são exigidos enormes sacrifícios aos portugueses é muito pouco ético para um dos homens mais ricos de Portugal  utilizar tal truque...

(-) - Outro sinal menos para o patrão do Pingo Doce por publicitar por todas as lojas que o aumento do IVA seria 0%!!! Só que não foram as suas empresas que suportaram esse custo mas sim os fornecedores que a isso foram obrigados!!! Muito pouco ético...Ou, como disse Sócrates, não é por se ser rico que se é bem educado...a que eu acrescento: ou ter ética!!!

(-) - Para Pedro Passos Coelho. Diz não pactuar com a chantagem de José Sócrates relativamente à necessidade de estabilidade política. O Bloco de Esquerda decidiu não fazer, na moção de censura, qualquer referência ao PSD. Uma oportunidade para PPC ser coerente com a sua afirmação e votar, no próximo dia 10, a favor da moção de censura. Só que o oportunismo político é mais forte. Ou, como afirmou Santana Lopes, provavelmente PPC só está preparado para governar com estabilidade. Ou seja o trabalhinho do actual governo ainda não está completo..